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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pânico!!!

Na segunda-feira, ao percorrer os canais de televisão (não gosto de dizer zapping), passei pelo Prós e Contras do Canal 1. O tema era a educação. Passei por lá justamente quando estava o Paulo Portas a falar. E dei por mim a concordar com tudo o que ele disse!!! PÂNICO!!! Mudei logo de canal, não fosse continuar a pecar dessa maneira!

PS: jágora, ele estava a falar sobre a crise de autoridade e respeito dos professores, sobre a necessidade de as faltas terem relevância na avaliação escolar, etc. E, juro, falou bem - ou não estivesse ele a falar de autoridade, verdade seja dita.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Infelizmente, é bem verdade

Um dos grandes problemas da situação do sistema de ensino está aqui excelentemente apanhado: a cada vez maior desresponsabilização dos alunos e a excessiva responsabilização e sobrecarga dos professores naquilo em que não devem ser sobrecarregados nem responsabilizados.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Desancamento em Estado de Guerra ou The Hurt Locker

Um dia depois de o filme ter ganho a corrida aos Óscares, resolvi dar uma vista de olhos no IMDB às críticas de "Estado de Guerra" (The Hurt Locker). Bem, tudo que é pessoal que esteve no Iraque ou no exército desanca no filme forte e feio (vejam, por exemplo, aqui).
Eu já vi o filme e, sinceramente, não consigo perceber se gostei ou não; mas enquanto via o filme, também me deu a forte sensação - a mim, que não fui sequer à tropa - que o filme é muito incoerente e pouco realista, tal como esta malta diz, apesar de ser notório que tenta exactamente o oposto, ser um relato intenso e fidedigno daqueles moços no Iraque que desarmam bombas.
Como já disse aqui anteriormente, apesar de ter adorado o filme "Avatar", não foi o melhor filme do ano; mas "Estado de Guerra" seguramente também não! E depois de os ter visto aos dois, e sem o poder dizer com forte convicção, creio que preferia que tivesse ganho o "Avatar". No entanto, muito melhores que esses dois são "Distrito 9" e "Sacanas Sem Lei" - aí sim, o Óscar teria sido bem entregue (aliás, não percebo como é que o Tarantino não ganhou nenhum Óscar, como realizador ou argumentista...)

sexta-feira, 5 de março de 2010

"Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton

N´ O Público, ainda só Luís Miguel Oliveira criticou o novo filme de Tim Burton, e deu-lhe QUATRO estrelas. Estou cheio de vontade de ver o filme. Leiam a crítica de Luís Miguel Oliveira aqui.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Até dava vontade de rir, se não desse vontade de chorar...

Tendo estado bastante tempo afastado da net, só agora posso escrever sobre o desastre na Madeira. Assim, desculpem-me ser um post recesso.

Nesta tragédia que assolou a Madeira, houve um episódio verdadeiramente lamentável, que até poderia dar para rir, se não desse para chorar. Não sei exactamente os pormenores todos da notícia, mas retive o essencial, que é o que vou expor.

Numa das enxurradas, uma igreja de uma santa qualquer lá da Madeira foi totalmente destruída, apenas tendo ficado totalmente intacta a imagem da dita santinha. Nessa enxurrada em particular, morreram algumas pessoas, não sei se uma ou duas, se mais, mas morreram. Pois bem, o pároco lá da zona teve o atrevimento de vir dizer, muito emocionado, que se tinha dado um milagre, ao ter sido "salva" a imagem da santa apesar de a igraja ter sido toda destruída. Ou seja, um padreco qualquer, seja ele o que for na hierarquia eclesiástica, perante um cenário de desatre e de dor, veio clamar, alegremente, aquele milagre. Quando, repito, não só morreram muitas pessoas no geral, como, em particular na enxurrada que levou a igreja, houve pessoas que morreram.

Pergunto: será que o padreca em questão será bom da cabeça? Não se deve generalizar, sei que há de tudo, padres bons e padres menos bons, mas são exemplos como este que, quando me sinto espiritualmente a ficar mais ligado à religião e/ou à fé, me fazem voltar a um estado de quase repugnância pela Instituição...

Bem disse o Ricardo Araújo Pereira, numa das suas crónicas na Visão, algo como "gosto de padres, não gosto é de padrecas". Este da Madeira não só é padreca, como o consegue ser de forma asquerosa.

PS: Aviso já que o que vou dizer é politicamente muito incorrecto. Convivi muito de perto com Madeirenses na faculdade (um deles morou comigo, e somos grandes amigos). Quase todos eles defendiam a independência, ou quase, do arquipélago, e chegavam ao ponto de se considerarem superiores aos continentais (juro!) e de que praticamente não precisavam deles para nada. Pois bem, depois do que aconteceu e da prontidão e
generosidade que todo o país demonstrou para com a Madeira, dá vontade de lhes perguntar "Como é, ainda querem ser independentes?". Perdoem-me, sei bem que não é altura para estar com isso, mas precisava de deitar cá para fora este desabafo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"Um homem singular"

Pelos vistos, "Um homem singular" é um filmão. Não se pode perder!
N'O Público, o Jorge Mourinha dá-lhe CINCO estrelas (transcrevemos, em seguida, a cua crítica) e o Vasco Câmara, que costuma ser um pouco mais fedúncio, ainda assim lhe dá três estrelas.
Aqui fica a crítica do Jorge Mourinha:

Por: Jorge Mourinha (PÚBLICO)

Um Homem Singular
Um homem, só

Colin Firth é um homem para quem a vida já não faz sentido na extraordinária estreia na realização do estilista Tom Ford. É, dizemos nós, uma obra-prima

Era uma vez um professor de literatura numa universidade californiana, que vive uma sexta-feira normal como se fosse o último dia da sua vida. E, por vontade dele, é-o - porque, desde que o seu amor morreu num acidente de carro, já nada mais faz sentido. Este, então, é o percurso do último dia da vida de George Falconer, cansado de não mais ter ao seu lado quem esperava que o abraçasse e partilhasse a sua vida até ao fim. Uma espécie de "imenso adeus" a uma vida aparentemente encantada - um emprego confortável, um estatuto invejável, uma casa perfeita à esquina do Pacífico, mas que nada significam quando se deve sofrê-los sozinhos, quando se está cansado de procurar pensos rápidos descartáveis que só preenchem o enorme vazio que a morte deixou até a cola desaparecer.

Sempre que há um "penso rápido", um momento de empatia com o mundo, um momento em que George faz uma ligação emocional com alguém, a paleta de cores de Tom Ford explode num voluptuoso Technicolor saído da Hollywood dos anos 1950 e 1960, como convém a uma história que se passa em 1962, no pleno centro do sonho americano do pós-guerra. Mas é, literalmente, sol de pouca dura - tal como a noite se sucede ao dia, também a fotografia meticulosamente precisa de Eduard Grau regressa à dessaturação quase sépia que reflecte a tristeza indizível de um homem a quem foi arrancado, nas palavras de Chico Buarque, um "pedaço de mim".

Que esse "pedaço de mim" seja outro homem, que "Um Homem Singular" adapte um texto fundador da literatura gay assinado por Christopher Isherwood, apenas empresta uma dimensão adicional a um filme que fala de solidão, de luto, de esperança, de vida, de morte, de amor sem nunca os embrulhar em tiques ou truques de militância - porque a emoção central é universal, porque todos nós temos de aprender a enfrentar a perda de um ente querido, marido, mulher, amante, irmã, irmão, pai, mãe.

Há dois milagres no primeiro filme de Tom Ford. O primeiro é esse - conseguir encontrar o universal numa experiência singular, conseguir uma dificílima tradução em imagens de emoções profundas que já todos sentimos mas que nem sempre conseguimos articular.

E o segundo é inseparável do primeiro - é o facto de "Um Homem Singular" ser uma das estreias mais fulgurantes que vemos em muitos anos, de um controle formal e de uma sensibilidade que muitos cineastas mais experientes dificilmente ou raramente atingem. Tanto mais espantosa quanto Ford, um dos mais lendários estilistas da moda dos anos 1990, não tinha nenhuma experiência cinematográfica e não apenas prova saber muito bem o que está a fazer como arranca de Colin Firth, actor de cujo talento nunca se duvida, uma daquelas interpretações arrasadoras para entrar nos livros de referência. Todo em retenção e discrição, sem nunca cair nos opostos do excesso e da ausência, do minimalismo e do histrionismo, Firth ancora com uma segurança quase ofensiva um filme que podia muito rapidamente cair no exercício de estilo estéril.

Mas era preciso que Ford deixasse que isso acontecesse - e rapidamente se percebe que o que interessa ao estilista é contar uma história em vez de fazer pose. Encontrou o elenco ideal para isso (porque não é só Firth que é magnífico, mas também Julianne Moore, divina como há muito não a víamos, ou Matthew Goode) e, no processo, fez uma pequena obra-prima. "Um Homem Singular" pode bem ser um caso único - mas, se o fôr, ainda bem que existe.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A graça do Traque

Nota prévia: Sei que estou sempre a falar de traques, mas eles fascinam-me, que querem! Este é um post que sempre desejei escrever, desde que apareceram estas coisas dos blogues, mas acabei por nunca o fazer, frustração essa que estou, por isso, neste preciso momento, prestes a resolver.

O traque é a coisa mais engraçada do mundo. É universalmente engraçado, tanto espacial como temporalmente: sempre teve piada, desde o início dos tempos, e sempre a teve em todos os lados e culturas. Por isso, repito, o traque é, para mim, que gosto de os dar e deles me rir, fascinante!

O traque tem piada, desde logo, nas várias designações existentes: traque, desde logo, mas também peido, farpa, bufa, bojarda, entre outros que agora numalembra; até os infantis pu, pum e puzete têm também a sua graça, mais inocente, é certo, mas com graça, ainda assim. Mas é talvez nas expressões existentes para descrever o acto de dar um traque em si mesmo que se encontram as ideias mais engraçadas: desde os clássicos cagar-se, peidar e farpar-se, aos ironicamente ingénuos largar-se, deslargar-se ou descuidar-se, passando pelos mais pesados, dos quais rasgar soalho é o exemplo de maior respeito.

Mas voltemos ao traque propriamente dito.
Para ser engraçado, um traque tem necessariamente de ser sonoro ou de ter cheiro (um traque sem som nem cheiro não chega a poder ser categorizado como traque). Repare-se no entanto que, embora os traques que reúnam ambas as qualidades, som e cheiro, costumem ser dos mais engraçados, essa não é uma regra absoluta.
Há traques com sons tão cómicos que pouco importa se cheiram ou não, como, e apenas a título de exemplo, os bombásticos e curtos POM! tipo explosão, os delicados fiuíí (tanto mais engraçados quanto o final se prolongar), os sucintos e inesperados prrec, os discretos fffffftt e os enormes e medonhos que conjugam alguns destes (sobretudo se com um som húmido), tipo fiuíííííprreeeeec - pausa - ffffftPOM!
Por outro lado, muitos traques têm piada justamente porque não têm som mas apenas cheiro, originando aquelas situações sempre engraçadas em que um cidadão se deslarga silenciosamente numa sala, e fica impávido e sereno, rezando para que ninguém dê por ela, até que finalmente alguém diz "Ui, quem é que se largou?", os restantes não percebem até que o aroma vai chegando a todos os narizes, e rebenta tudo em risota geral, tanto mais intensa quanto mais fedorento for o traque; claro que o criminoso atira logo com um "quem se queixa é quem larga a ameixa", mas raramente se safa de ser descoberto.
(Esta situação também é muito típica quando o casal está na cama a preparar-se para dormir: ele (quase sempre é ele) manda um puzete de pantufas e fica muito calado para não se denunciar, até que a mulher dá por ela e zanga-se (já escrevi um post que aborda este assunto...)

Há também as situações embaraçosas para o autor do traque mas que, vistas de fora, têm imensa graça. Apenas como exemplo, lembro-me daqueles episódios que, no momento não têm piada mesmo nenhuma, mas depois, quando recordados, dão mesmo vontade de rir: o senhor A entra num elevador com alguma necessidade de "largar uma ameixa"; quando não está mais ninguém no elevador, larga-a e, passado umas fracções de segundo, pensa para consigo "que azar, tinha logo de ser dos que cheiram mesmo mal"; já só falta passar um piso para o senhor A chegar ao seu destino e assim se poder escapulir inocentemente, mas logo nesse piso o elevador detém-se e entra a senhora B, que se depara apenas com o senhor A e com o cheirete. Em casos como este, ninguém diz nada e mantêm-se ambos na sua e não se olham, como se nada se tivesse passado, mas nós bem sabemos que: o senhor A, por mais que disfarce, está super envergonhado e apenas deseja poder fugir do recinto; a senhora B, por piedade fazendo de conta que não deu por nada, está a rir interiormente e a pensar "ai tu largaste-te, meu malandro".

Para terminar, deixo a seguinte reflexão: não será o universo o resultado de um grande flato divino? Afinal, ao que parece, tudo começou com um Big Bang...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pôrra, que vai pr'aí uma Vampirage!

É de mim, ou o povo anda todo a passar-se à conta dos vampiros?

Há já muito tempo, li o livro do "Drácula", de Bram Stocker. Nesses tempos, o vampiro, o nosferatu, era a encarnação do mal, não tinha nada de romântico, charmoso ou apelativo, espalhava a doença e a miséria por onde passava - e não se fiem no filme "Drácula de Bram Stoker", do Francis Ford Coppola, que pode ser muito girinho e tal, mas subverte completamente a história original do livro, tranformando um ser grotesco como o Conde Drácula num vampirito de meia tigela que, afinal, tinha era um desgosto de amor por resolver, transformando-se o filme numa história de um romance proibido ou coisa do género. Muito melhores que esse filme, e muito mais acertados quanto à essência do livro, estão o "Nosferatu" (1922), do F.W. Murnau, e o seu fabuloso remake "Nosferatu: Phantom der Nacht" (1979)com o Klaus Kinski. Se calhar estes dois filmes não atendem tão minuciosamente aos detalhes do livro, mas a essência, a ideia original e fulcral, estão lá.

Mais tarde, apareceu o "Entrevista com o Vampiro", em que os vampiros já adiquiriram uma áurea mais misteriosa e interessante, mas, mesmo assim, seres malditos obrigados a vaguear pelas trevas com imensas condicionantes. Notava-se já, porém, aí uma certa tensão homossexual.
Mas tudo bem, ser vampiro era uma merda tramada, nada que ninguém pudesse invejar.

Mas agora apareceu a merda da saga "Twilight", que destruiu completamente a mística da vampirage. Rai's parta lá os vampiros bonzinhos, todos muito lindos, cheios de poderes que todos gostavamos de ter. Ser vampiro tornou-se, hoje em dia, em ser cool. É ridículo. Ainda por cima aquela cor branquela que eles têm dá-me vontade de lhes desatar aos estalos.

O pior é que as nossas televisões estão a aproveitar e a fazer montes de séries de vampiros, cada uma pior que a outra. Antes de mais, nunca tinha reparado que em Portugal houvesse tanta vampirage. Em segundo lugar, que ela era tão foleira!!!

Por isso, deixo aqui um repto: que se quilhem os vampiros, e optemos por monstros muito mais portugueses, tipo os gambosinos, o pesadelo (para quem, não sabe, um monstrinho que, sendo pequenino mas muito pesado, se põe em cima de quem está a dormir perturbando-lhe assim, o sono), o bicho-papão, o bruxedo, e os comunistas (dos antigos, que comiam criancinhas ao pequeno-almoço) e, acima de todos os pavores, o polícia: ainda me lembro "ou comes a sopa toda ou vem aí o polícia".

Os vampiros são mariconços que praí andam, a ferrar de forma altamente pouco higiénica os perscoços de quem está para os aturar.

Ainda apanham a sida e, como quem estás por dentro da private joke, eles não morrem, mas envelhecem...

Abaixo a vampirage foleira, JÁ!!!

Estou aqui, estou a morrer...

Ontem foi dia de consulta médica aos funcionários da Câmara Municipal, no âmbito de uma medida que, creio, é bianual, relacionada com a as Condições Médicas e de Saúde na Câmara - aliás, acho que todas as empresas, públicas e privadas, o têm de fazer.
Pois bem, meus amigos, estou a morrer! Em dois anos e meio engordei 10Kg (DEZ QUILOS, CÁ PUNHA!!!) e as minhas tensões arteriais estão ligeiramente altas, 13-9, quando o ideal é, no máximo, 12-8. A verdade é que tenho tomado muito café, vou ter de começar a reduzir. Também ando a fumar como um cavalo (donde é que vem esta dos cavalos fumarem muito?). Antes de começar a trabalhar na câmara, era muito pouco sedentário, praticamente não fumava e as minhas pulsações e tensões arteriais eram excelentes. No entanto, o trabalho da câmara é hiper sedentário. A ajudar à festa, durante muito tempo não conseguia ter tempo para ir ao ginásio, por causa do miúdo. Agora que ele está maiorzinho, já passei a dispor de mais tempo. Comecei, então, cheio de pica, os meus treinos no ginásio. Andava lá ainda nem há um mês, apareceu-me uma tendinite grave no tendão de aquiles esquerdo, que me impede de fazer quase todos os exercícios que envolvam as pernas e, sobretudo, os pés. O meu treinador no ghinásio já me disse que me fazia um plano específico para o meu caso; simplesmente, tenho de fazer fisioterapia diária durante, pelo menos, um mês, e só tenho tempo para a fazer ao fim do dia: justamente o período em que podia ir ao ginásio...

Assim sendo, começo já a ver o meu caso mal parado.Pois bem, só vos peço três coisas: no meu velório, ponham uma foto minha o mais divertida possível, passem a música do underground e cremem-me - depois o que fazer às cinzas fica ao vosso critério.
Adeus, e gostei muito de vos conhecedr a todos!

Don Pimpón, o moribundo dramático.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Porque não podem ser ordenados padres homossexuais?

Para mim, é óbvio que a homossexualidade é algo de inerente à natureza do indívuo e, por isso, perfeitamente natural (perdoem-me a repetição), não é nada contra-natura, não é uma invenção pérfida de alguns. Atenção, não acho que seja "normal" ou "comum", ou seja, acho que é uma natural excepção à regra, tal como também o são os canhotos e os albinos, por exemplo. Seja como for, para mim a homossexualidade não é uma doença, embora não consiga explicar bem o que é, dadas as imensas condicionantes extremamente interdependentes e interinfluentes que a compõem e determinam, genéticas, congénitas e culturais.

Mas suponhamos, por mera hipótese académica, que a homossexualidade é, de facto, uma doença de nascença, tal como o são a bipolaridade, a epilepsía, ou outras de que agora, por falta de tempo por estar a escrever no trabalho, não me lembro.
Porque raio é que, na igreja católica, não pode um "doente homossexual" ser ordenado padre? Pode ser por ignorância minha, mas creio que nenhuma outra doença que impeça o discernimento das pessoas sejam entraves à ordenação de um homem como padre. Ora, se assim é, porque não ordenar padres homossexuais? Não estão eles, afinal de contas, obrigados ao celibato? Mesmo que a igreja católica condene a homossexualidade, que de facto condena, não deveria estar aberta àqueles que, sendo-o (por doença, não esqueçamos a hipótese que estamos a pôr) mas lutando contra ela, tenham uma vocação e uma fé tais que, tirando o facto de serem doentes, fariam deles excelentes padres?
Eu sou sinceramente respeitador da doutrina da igreja no que ao casamento entre pessoas do mesmo sexo concerne: acho que, dentro dos seus dogmas e conceitos, é perfeitamente legítimo que se considere como impossível a consagração do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo - quem não é católico não tem nada que meter bedelho nisso, TAL COMO A IGREJA NÃO TEM NADA QUE METER BEDELHO NO QUE AO CASAMENTO CIVIL ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO CONCERNE. Mas recuperemos o raciocínio. A doutrina católica não permite o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo; se os padres se pudessem casar, tudo bem que não se pudessem ordenar padres que se quisessem casar com outro homem. Mas, mesmo nessa hipótese, não poderia um homossexual, dada a sua crença, vocação e fé, conformar-se com tal situação e, por isso, ser ordenado padre?
Ou seja, qualquer pessoa que enferme de doença que não a diminua mentalmente pode ser padre, mas os doentes homossexuais não.

Alguém me consegue explicar isto, por favor?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Traques: um drama conjugal

Não sei porquê, ando a dar traques verdadeiramente assassinos, ninjas, até: não se ouvem, não se percebem, mas são terrivelmente mortíferos, dum grau de fedorentice indizível. E isso está-se a transformar num verdadeiro problema conjugal. Porquê?
Explico.
Sempre fui muito traquento, como, aliás, é dever do estereótipo do homem. Mas sempre foram traques dos mais engraçados, muito barulhento e com sons cómicos, mas sem cheiro, ou, a tê-lo, nada de relevante.
Sucede porém que, agora, desde há relativamente pouco tempo, não tendo alterado nada na minha dieta quotidiana, passei a dar os tais traques-ninja. Ora, a minha senhora tem nariz de sabujo, tem um olfacto quase tão bom como o do tubarões, que detectam uma gota de sangue numa piscina olímpica (apesar de eu nunca ter visto tubarões em piscinas olímpicas, mas pronto). Acho que ela teria até futuro numa qualquer brigada antidroga, a farejar, junto com os cãezinhos, para encontrar droga escondida nos aeroportos - e aposto que se sairía tão bem que até despediam os cães.
Mas voltemos aos traques-ninja. Como já devem ter percebido, não são, de todo, compatíveis com uma esposa com super-olfacto.
A isto acresce que só à noite é que tenho necessidade de soltar essas funestas ventosidades. A minha senhora zanga-se comigo, reclama histericamente e manda-me ir dá-los à casa de banho. Mas, como quem é traquento como eu bem sabe, sempre que se chega à casa de banho a vontade desaparece, ressurgindo imediatamente e em força quando se volta para o quarto, designadamente para a cama. E a vontade é tão constante e repetitiva que, se fosse à casa de banho sempre que dá vontade de dar um peido, não dormia! (Sim, que eu sou bem mandado e obediente e corro sempre que posso à casa de banho para me deslargar).
Ontem dei um traque no quarto do meu filho e fugi para o meu, na esperança de que aquele apanhasse com as culpas. Pois bem, os meus traques são tão imensos e tão terríveis - logo, tão personalizados - que ouvi do quarto do miúdo a minha gaja dizer: "Ui, o papá esteve aqui e deu um pu?" - e, claro, o puto chibou-me. Ela voltou a zangar-se comigo por não ter ido à casa de banho, e eu zanguei-me com ela porque isso de ir constantemente à casa de banho sempre que me dá vontade de me peidar está tornar-se num verdadeiro handycap!!! Para além de que não quero que ninguém saiba, porque é embaraçoso!
Juro que nunca pensei ter problemas conjugais e familiares devido a flatos...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Excelente comentário a notícia d'O PÚBLICO

Vi hoje esta notícia sobre uma proposta do Procurador-Geral da República (PGR) sobre o texto legal a criar para a adopção por casais homossexuais, notícia que, lá pelo meio, fala também das opiniões do Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados. Se considero que as ideias do primeiro não deviam interferir com o debate político em curso sobre o tema, já a posição do Marinho Pinto é absolutamente inenarrável e aberrante (gosto muito de dizer "inenarrável" e "aberrante").

Dento dos comentários à notícia, o que mais gostei foi este, que transcrevo porque não sei como fazer link para ele:

«E quem lhe encomendou o sermão???
Se o PGR lêsse os documentos que são publicados pela própria Procuradoria-Geral, ficaria a saber que os casos de pedofilia em Portugal, como aliás noutros países, pouco ou nada têm que ver com os homossexuais, pois segundo as estatísticas da PJ, as crianças molestadas são em larga maioria meninas (74,8%), os pedófilos são na maior parte dos casos casados, e numa maioria dos casos são também os pais das crianças!!! Ora, estamos então perante um preconceito. E se o preconceito é "aceitável" ao abrigo do direito de opinião de um particular, torna-se criminoso quando vem da boca de um Representante da República. Idem, para o Bastonário da Ordem, que representa um colectivo que é suposto cumprir a Lei. Ora, a Lei já prevê a adopção monoparental, e se não há inconstitucionalidade no casamento, se houver restricções à adopção estaremos perante uma presunção de culpabilidade ou de risco, que é contrariada pelas estatísticas, e que constitui uma manifesta discriminação. Se não existe presunção de culpabilidade na corrupção, mesmo na presença de indícios, porque haveria de haver na adopção, baseada em meros preconceitos???»


Jorge Silva Marques, Lisboa. 20.01.2010 20:13

Muito mais há a dizer sobre o assunto, mas neste momento não tenho tempo...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

União legal de homossexuais: chamar "casamento" ou não chamar "casamento", eis a questão

Encontro muitas pessoas que são a favor de uma união legalmente protegida entre pessoas do mesmo sexo, desde não se chame "casamento", apesar de acharem que deve ter exactamente o mesmo "conteúdo".
Ora, durante muito tempo também eu pensei que se deveria instituir legalmente uma união (chamemos-lhe, de forma algo imperfeita, "matrimonial") entre pessoas do mesmo sexo, mas com nome diferente do de "casamento" - afinal, a própria definição de casal implica dois sexos diferentes, ao contrário da definição de "par" (por exemplo, quem tem um filho e uma filha diz que tem "um casalinho", mas já não diz que tem "um par"; quando se juntam dois animais da mesma espécie mas de sexos diferentes, diz-se que são um casal e que vão acasalar, não que são um par; na sua inversa, digo que tenho um "par de sapatos", não um "casal de sapatos").
Contudo, pensando melhor nesta questão de conceitos, comecei a reparar que as palavras casal, casar e casamento também servem outras situações, aquelas em que temos de juntar duas coisas que sejam iguais e/ou que, sobretudo, se complementem. Diz-se "casar as meias" (a minha mulher está-me sempre a dizer que o não faço...), "esta peça casa com aquela", "esta camisola casa mesmo bem com estas calças", "aqueles dois casam mesmo bem, são mesmo um para o outro", etc.
Ou seja, comecei a reparar que o significado intrínseco da palavra casamento e seus congéneres não é tão certa quanto isso. Pode ser usada para dizer que duas pessoas se complementam, uma completa a outra, o que já não implica em nada a diferença de sexos.
Aqui chegado, comecei a aperceber-me que, por mais que o significado das palavras e estas em si mesmas sejam relevantes, mesmo em termos de reacção psicológica e emocional (por exemplo, para designar o sexo do homem, eu posso dizer "pénis", "pila", "piça" ou "caralho", palavras que, querendo dizer todas exactamente a mesma coisa, têm valorações e suas consequentes reacções sociais, psicológicas e emocionais muito diferentes entre si), acho que isto de não chamar casamento à união de dois homossexuais é uma paneleirice, passe o pleonasmo:
1º - Legal e juridicamente, não faz muito sentido criar um instituto jurídico novo para os homossexuais mas com um regime totalmente igual ao do casamento, só para não lhe chamar a mesma coisa. São um esforço e uma técnica legislativa inúteis.
2º - Quando uma pessoa apresenta o BI ou o CC, lá diz se é casado, solteiro, etc. Ora, acho que seria uma violação da reserva da vida privada de cada cidadão passar a saber-se, pela exibição do BI, que determinada pessoa é homossexual. Pode parecer uma pintelhice, mas não o é de todo.
No meio disto tudo, o que verdadeiramente me preocupa é que, na inenarrável e aberrante hipótese de se vir a fazer um referendo sobre esta matéria, haja muitas pessoas que, embaladas nesta treta demagógica da palavra "casamento", façam com que ganhe o "não", adiando uma vez mais, desse modo, a solução para um problema real e concreto que se traduz numa tremenda injustiça que urge combater. Faz lembrar no primeiro referendo do aborto, em que muitas pessoas que conhecia pensavam votar "não" (ou votaram mesmo) porque achavam que o aborto é uma coisa má, mas, ao mesmo tempo, também achavam que as mulheres que o fizessem não deviam ser criminalmente perseguidas e punidas - ou seja, a sua atenção foi demagogicamente descentrada do problema fulcral e essencial para uma discussão acessória.
Por isso, a acontecer o referendo (valha-nos o Senhor para que não!!!) por favor que ninguém deixe de votar no "sim" só por causa da merda do nome, se, no essencial, concordarem que as pessoas do mesmo sexo devam ter direito a celebrar um contrato em tudo equivalente ao casamento. É que não deve esquecer-se que, legal e socialmente, o casamento não se traduz apenas em declarar o IRS juntos ou de os "cônjuges" serem herdeiros um do outro, como muitos querem fazer crer. O casamento implica um comprometimento jurídico-social muito mais vasto, que engloba os direitos/deveres de respeito, fidelidade, assistência, entre outros, que, sendo violados por uma das partes, pode a outra chegar, inclusivamente, a ser indemnizada por isso.
Não disse tudo o que tenho a dizer sobre esta questão do casamento de homossexuais, mas, de momento, por causa disto, não consegui deixar de escrever este post.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Espaço Guimarães

Na quarta-feira da semana passada fui pela primeira vez ao novo Shopping, o Espaço Guimarães (EG), ver o filme "A Estrada", sobre o qual conto aqui falar, dentro em breve, em post autónomo.
Cheguei mesmo em cima da hora do filme, pelo que só me deu para ver o EG desde o estacionamento até às salas de cinema. Feita essa ressalva, cumpre-me dizer que o adorei! É muito bonito, muito amplo e espaçoso, com linhas muito suaves e agradáveis (tem, numa zona, um tecto em madeira muito bem conseguido, que parece mesmo a estrutura de um navio, tipo caravela ou assim, virada ao contrário). O estacionamento também é porreiríssimo e modernaço, com aquelas luzinhas no tecto, em cada fila, a indicar que e quantos lugares estão vazios.
No entanto, pelo que ouvi dizer, o EG está às moscas, e já estão a despedir pessoal. Tenho mesmo pena.
Mas outra coisa não seria de esperar num shopping que não tem Fnac, Worten, Bertrand ou qualquer outra loja desse género. Praticamente só tem lojas de roupa. Eu, e muitas pessoas que sei serem como eu, não fico nada atraído por ir visitar um centro comercial que não tenha nenhum tipo de ofertas daquele género. A não ser que queira ir concretamente a esta ou aquela loja comprar roupa, não me parece que lá vá passear, se me faço entender.
A agravar temos o facto de o EG ser fora da cidade, pelo que o Guimarãeshopping (GS) continua a ser muito mais apelativo para se dar uma fugida. Também não ajuda nada a "duplicação de lojas" que existe entre os dois shoppings, como, por exemplo e pelo menos, a Sport Zone, que se encontra em ambos. Mais uma vez, dada a proximidade e acessibilidade do GS, ainda que seja por vezes mais psicológica que real, é muito mais provável ir à Sport Zone do GS que à do EG.
Por isso, ou eles arranjam algum atractivo forte e mais ou menos exclusivo no EG, ou este não vai ter o resultado esperado, por muito bonito que seja.
Uma vez que os cinemas de ambos são da Castello Lopes, eu apostava em passar os filmes mais chamativos e mediáticos no EG, como, aliás, foi feito - e bem - com o "Avatar", cuja versão em 3D só passou no EG. Pode ser que assim consigam ir chamando público até conseguirem outras atracções que sejam mesmo apelativas a lá ir.
Quero ver se lá vou de vez em quando, e exorto todos a fazerem o mesmo, já que seria uma pena que um "Espaço (em) Guimarães" tão bem conseguido não desse certo...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Moitedo: uma espécie em vias de extinção?

Acompanho desde há longos anos, com interesse elevado, a evolução dos pêlos púbicos das senhoras ao longo dos tempos, os quais designo carinhosamente, também desde há longos anos, de "moitedo".
Quando era adolescente, encontrei lá para casa uma Enciclopédia do Sexo e da Vida Íntima, dois enormes e grossos volumes que li avidamente. Posso dizer, sem qualquer brincadeira ou ironia, que aprendi mesmo muito com essa leitura, não só no que ao acto do sexo concerne, mas também quanto a tudo que tem a ver com a sexualidade, a intimidade, e até coisas básicas como a geração, parto, etc - a enciclopédia era excelente, explicava desde o mais básico no que ao sexo concerne até à homossexualidade, os gémeos, o desenvolvimento da sexualidade das crianças e jovens, em todos os seus aspectos, genitais, corporais, psicológiscos, emocionais e mais não sei o quê. Continuo a ter muitas opiniões, hoje em dia, que se formaram com base na leitura dessa enciclopédia.
Mas voltemos ao moitedo.
Nessa enciclopédia, descreviam-se as várias características do corpo e morfologia de ambos os sexos que mais frequentemente suscitam uma reacção erógena no sexo oposto, ou seja, características físicas do homem e da mulher que são normalmente fonte de excitação. Nas mulheres, entre elas e de forma demarcada encontrava-se a forma em V dos pêlos púbicos, cuja visualização, tal como as maminhas, é excitante para os homens. Sempre concordei com isso. E, nas imagens de mulheras "péladas" (como diria o Aleixo) que via na TV, revistas e filmes (desde os mais ingénuos aos badalhocos - eu gosto muito de badalhoquice, não de toda, mas gosto) e, já agora, ao vivo, o V era geral e universal e, efectivamente, algo que fazia "clic" dentro de mim, que me produzia um efeito libidinoso.
Daí ter começado a ficar desgostoso quando, nas tais revistas e filmes (confesso que, neste caso, sobretudo mais nos "para homens", tipo Playboy, e nos menos - ou nada - ingénuos), o V começou progressivamente a desaparecer, transformando-se, primeiro, num rectângulo vertical, que foi diminuindo até ao ponto de parecer o bigode do Hitler, e continuou a diminuir até ser uma minúscula e ridícula linhazinhinha vertical, um I, se quisermos voltar às letras, que, se calhar, mais valia não estar lá.
Pois bem, deve ter sido exactamente isso que as mulheres e os homens que as "promovem" pensaram, porque hoje não há mulher descascada que não tenha extirpado completamente o moitedo do seu púbis. O MOITEDO DESAPARECEU, MEUS AMIGOS! Aquilo que, nos anos 80, na minha pré-adolescência e adolescência, era apenas uma bizarria da Ciciolina (é assim que se escreve?), transformou-se em moda e regra geral.
Porquê o desaparecimento desse lindo arbusto, pergunto eu? Quem é que se excita com uma mulher despelada no baixo ventre? Também me pergunto como é que elas fazem para manter domado o moitedo, já que, tal como a barba, é pêlo que começa a crescer logo nos dias imediatamente posteriores à sua remoção, o que provoca imensas comichices, para além de ficar tenebrosamente feio (sim, eu sei isto porque também já o tive rapado, mas apenas por causa de uma intervenção cirúrgica a que necessariamente me submeti para tirar uma variz no tomate esquerdo e "afinar a gaita"). Será que as senhoras desmoitadas fazem a barba à passarinha todos os dias? Se sim, com que lâmina e espuma? As da Gillete for men? Com máquina? De depilar ou das para barbas rijas, das que as desfazem, aparam e estilizam?
Claro que não gosto de ver uma senhora com um púbis tipo Heavy Metal, mas tirá-lo completamente? Porquê, repergunto?
Resumindo, com grande pena minha, o moitedo é espécie em vias de extinção, e, por isso, e enquanto moitedo lover, exijo que seja criada imediatamente uma área de reserva ecológica protegida para essa líndissima forma capilar, sobretudo focada na manutenção do V.
Subscrições e apoios financeiros aceitam-se e agradecem-se.
Concluo com nostalgia: "V - A Vitória Final".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Estrada

Mais um filme que estou em pulgas para ver: "A Estrada", de John Hillcoat, baseado no livro com o mesmo título de Cormac McCarthy, autor de, entre outros, "Este País Não é para Velhos", passado para filme em 2007 pelos irmãos Coen (que, como certamente se recordam, arrecadou imenos prémios, incluindo o Óscar de Melhor Filme).
Voltemos a "A Estrada". Baseado na crítica do Jorge Mourinha, n'O Público, que abaixo transcrevo, e de outras críticas no IMDb, parece-me que o filme deve ser excelente.
A minha mãe pretendia ontem ir ao cinema e sugeri-lhe "A Estrada". Ela gostou muito, tanto que foi a correr comprar o livro para mo oferecer (também estou em pulgas para o ler).
Ou seja, com base nas críticas lidas, parece-me que este filme é uma antítese do "2012" (que não vi) e da sua parafernália de efeitos especiais, apesar de o tema ser semelhante. Por outro lado, todas as críticas que li são unânimes no aplauso às interpretações de Viggo Mortensen e do estreante Kodi Smit-McPhee, reclamando-se Óscares, o negrume e ritmo do filme são também geralmente apontados como sendo de grande impacto e qualidade, e, ainda, a adaptação do livro de McCarthy para a tela é dita como sendo muito boa - se não mesmo excelente - por praticamente todos quanto leram o livro e viram o filme.
Sem mais delongas, aqui vai a crítica do Jorge Mourinha:

«O dia do desespero

O filme que John Hillcoat tirou do romance de Cormac McCarthy é uma viagem sem regresso a um mundo pós-apocalíptico onde a humanidade enfrenta o fim da esperança

Enquanto víamos "A Estrada", demos por nós a pensar que o filme de John Hillcoat apenas vai ter uma fracção infinitesimal dos espectadores que assistiram à super-produção de Roland Emmerich "2012". Vai de si: as pessoas hão-de sempre preferir um apocalipse que "encha o olho", cheio de milagres tecnológicos que salvam o futuro da humanidade à última hora, do que um que nos recorde como a nossa existência na Terra é frágil, à mercê dos elementos e, apesar de toda a esperança, sem salvação garantida.

O apocalipse tem sido assunto recorrente no cinema recente, mas o que Hillcoat faz a partir do romance de Cormac McCarthy ultrapassa a fancaria digital de Emmerich ou até a perturbante visão da metrópole abandonada do "Ensaio Sobre a Cegueira" de Fernando Meirelles. O mundo destruído, moribundo, angustiantemente plausível de "A Estrada" é um daqueles "milagres" que ainda só o cinema consegue criar - um equivalente invertido, cinzento e "flat", da demiurgia Cameroniana de "Avatar".

Não é, no entanto, nessa oposição fácil e gratuita do filme inane de grande espectáculo ao filme intimista de prestígio que reside o discreto triunfo de "A Estrada". Nem no facto do australiano Hillcoat (que apenas conhecemos entre nós do western dos Antípodas "Escolha Mortal", 2005) e do argumentista inglês Joe Penhall terem conseguido adaptar o supostamente inadaptável romance de McCarthy, transcendendo uma pós-produção complicada que viu a estreia do filme, rodado em 2008, atrasada de quase um ano.

Esses factores ajudam, claro, e não é pouco - a par de uma impecável produção artística e técnica (a fotografia cinzenta, dessaturada de Javier Aguirresarobe, o design de produção meticuloso de Chris Kennedy), a par das interpretações assombrosas de Viggo Mortensen e do estreante australiano Kodi Smit-McPhee no papel do pai e do filho que percorrem uma América pós-apocalíptica em busca de uma quimera que talvez já não exista. Mas o verdadeiro triunfo de "A Estrada" é no modo como Hillcoat articula todos esses elementos numa visão angustiante, aterradora, incomodativa, de um mundo morto e sem esperança, onde a humanidade está reduzida a uma selvajaria animal e impiedosa, a uma sobrevivência primal. Onde um homem e um menino procuram, quase como D. Quixote investindo contra os moinhos, manter viva a chama de uma civilização, por mais trémula que ela seja, no mais absoluto negrume.

Hillcoat faz deste mundo perdido em que nos mergulha impiedosamente o palco improvável de uma meditação sobre a herança, a transmissão, a esperança. Inverte de modo hábil as coordenadas habituais do cinema de género e da ficção apocalíptica para as reduzir a um mero esqueleto, amputado de heroísmos e fantasias, do qual apenas resta um instinto tribal de sobrevivência confrontado com um mundo onde todas as referências e padrões desapareceram para talvez nunca mais regressarem e onde o desespero e a morte são perseguidores incansáveis. Talvez haja mais de super-herói neste pai que teima em sobreviver no que em todas as fitas de super-heróis jamais feitas (e não é inteiramente casual que seja Viggo Mortensen, consagrado pelo heróico Aragorn do "Senhor dos Anéis", a entregar-se-lhe com esta paixão). O que reside no fim da estrada que Hillcoat desenha não sabemos, tal como não sabemos o que causou o apocalipse que destruiu a civilização; o que sabemos é que a viagem em que ele nos leva exige um estômago forte (espíritos frágeis, abstenham-se) e nos devolve à realidade singularmente impressionados.
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[Por: Jorge Mourinha (PÚBLICO)]